ARTIGO
Lei, leis, quebradas, poderes: relato de um “quase” acorrentamento
E quando à Lei recorremos contra a barbárie, defender a vida vira “apoiar bandido”, vira “coisa dos direitos humanos”
Felipe Athayde Lins de Melo - 23/02/2014 - 09h00

Sexta-feira. Centro da cidade. O relógio se aproxima das 13h e embora o termômetro não apresente os cerca de 40 graus dos dias anteriores, a temperatura continua quente na Califórnia Paulistana. Enquanto aguardo a abertura da piscina para cumprir com o hábito recém adquirido de nadar dois quilômetros diariamente, um plect estrondoso chama atenção da pequena aglomeração que se posta à porta do clube. Em meio a ruídos e gritaria, uma voz rouca emerge nervosa: “para, para, num faz isso não”, grita um adolescente.

Negro, bermuda comprida e camiseta larga, corrente no pescoço, boné. Tatuagens nos braços. Chinelos de dedo. Aparenta cerca de 13, 14 anos. Caído no chão, ao lado da bicicleta que fizera aquele primeiro estrondo, o garoto tenta se desvencilhar de duas meninas que, debruçadas sobre ele, desferem-lhe socos e tapas. Pessoas se aglomeram em volta. Um jovem pega o garoto pela camisa, o puxa para cima e, com uma chave de braço, o imobiliza. Outro adolescente, raivoso, chuta o garoto. Inicia-se uma agressão coletiva.

Atravesso a rua: “parou, parou. Segura a onda aí gente!”. Intrometo-me na roda, puxo o garoto e tento parar os golpes das meninas. Uma delas grita que o garoto lhe roubara o celular e que ela correra atrás dele, derrubando-o da bicicleta. “Se fudeu moleque, vai mexer com mina de quebrada, agora tá fudido”, ela ameaça, olhando em minha direção. Tento acalmar as meninas, dizendo que o correto é chamar a polícia. “polícia o caralho, eu tô ligando é pro Felipe, lá da minha quebrada, ele vai vir aqui e ce vai se fuder”, ela grita novamente, agora olhando para o garoto. Descubro então que um xará pode chegar a qualquer momento para “resolver” a situação.

 Por trás de mim, outro rapaz, alto e forte, do tipo que passa horas na academia de musculação, lança outro soco na cabeça do garoto, quase desfalecendo-o. Sem pedir licença ao proprietário, empurro o garoto para dentro de uma loja de óculos e me posto à porta. O dono da loja, que já acompanhava a confusão, se põe ao meu lado. A raiva dos presentes se volta contra nós: “cêis vão acobertar bandido?”, grita uma senhora, trajada com uniforme de uma concessionária de rodovias. “Solta o moleque aí meu, deixa as meninas darem uma surra nele”, esbraveja um frentista do posto de gasolina que fica ao lado. “Hoje é a filha dos outros, amanhã vai ser a sua filha”, enfatiza a senhora da concessionária. Um mototaxista, talvez familiarizado com aquele tipo de cena, reduz a velocidade e pergunta: “pegaram algum bandido aí?”. A senhora da concessionária responde: “O cara tá acobertando o moleque lá dentro da loja”, ao que o mototaxista finalmente freia e, parando a moto, ameaça: “aê playboy, vai correr com bandido aí?”.

Temendo pela nossa segurança, peço ao dono da loja que ligue para a polícia. “Eles já estão vindo”, avisa uma funcionária do clube, que também atravessara a rua para ajudar a conter os raivosos: “calma gente, tem de esperar a polícia chegar”, ela diz aos “justiceiros”, com voz mansa e tom apaziguador. “É sempre essa merda dos direitos humanos”, manifesta-se mais uma vez a senhora das rodovias, completando: “a polícia não vai fazer nada, vai soltar o moleque. Tem que dar um surra nele pra ele aprender a não mexer mais com a filha dos outros”. Dirigindo-se ao garoto, a menina que fora vítima do roubo reforça a ameaça anterior: “na polícia não dá nada não, porque você é de menor. Mas hoje a tarde mesmo cê vai ver só moleque. Cê quer ser bandido, cê vai ver o que é bandido então. Cê mexeu com a menina errada, agora cê tá fudido”.

Nove minutos se passam até a chegada de uma viatura da PM. As pessoas se dispersam. Dois soldados saltam do carro, entram na loja, retiram o garoto e o colocam na calçada, rosto voltado à parede. Mais uma vez, longe de querer “apoiar bandido”, temo pela segurança do menino. Difícil confiar numa polícia que vem, corriqueiramente, acumulando casos de agressão e violência desmedida. Para minha surpresa, ao algemar o garoto, um dos policiais o pergunta: “por que você está fazendo isso menino, você nunca ouviu as palavras de Jesus?”.

O tratamento é cordial; a abordagem do policial, inspirada em suas crenças religiosas, ao menos naquele momento não recorre à agressão. Junto com a funcionária do clube, começo a atravessar a rua. O dono da loja ainda exclama: “você fez certo rapaz, não é com violência que a gente vai educar essas crianças”. Cumprimento-o com um aceno de cabeça e penso que, vez ou outra, os deuses surgem para promover intervenções aceitáveis.

Mais tarde, enquanto escrevo essas linhas, penso na ironia de recorrer a uma instituição da qual todos nós desconfiamos. Homens treinados para o exercício da força. Deuses de suas próprias leis. E quando à Lei recorremos contra a barbárie, defender a vida vira “apoiar bandido”, vira “coisa dos direitos humanos”. Judiciário, Executivo, Legislativo: Poderes em suspeição. Quando os alicerces da civilização se abalam, não é só das quebradas que os justiçamentos transbordam.

Ribeirão Preto continuava quente. E a temperatura se elevara naqueles dez minutos que antecederam minha natação.

 

Felipe Athayde Lins de Melo é doutorando e mestre em sociologia pela Universidade Federal de São Carlos, onde integra o Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos, coordenado pela Profª. Drª Jacqueline Sinhoretto. Autor do livro “As prisões de São Paulo: Estado e mundo do crime na gestão da ‘reintegração social’”, no prelo para lançamento pelo selo Conflitos e Justiça, da Alameda Editorial.
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