ARTIGO
O sorriso de dona Nalvinha
A súbita fama da sertaneja que trata Lula como pai e Dilma como mãe
Marco Piva - 26/08/2014 - 16h08

Dona Marinalva Gomes Filha (assim mesmo, com a no final) é sertaneja e tem 46 anos. Mora em Batatinha, uma comunidade do município de Paulo Afonso, na Bahia. Ninguém saberia da existência de dona Marinalva se ela não tivesse recebido em sua humilde casa ninguém menos do que o ex-presidente Lula e a presidenta da República, Dilma Roussef. Serviu carne de bode para a dupla de visitantes ilustres, inaugurando em grande estilo o fogão à lenha ampliado, uma das ações previstas no programa do governo baiano para melhorar as condições de vida da população rural do estado.

Segundo ela, sua vida melhorou de uns anos para cá. Para resolver a crônica falta d’água, ganhou duas cisternas e isso fez toda a diferença. A água é um sonho tão importante no sertão baiano quanto o primeiro carro que o filho espera receber do pai ao completar 18 anos em uma família de classe média urbana. Enquanto a cisterna, que custa em torno de R$ 1 mil, delimita a fronteira entre a vida e a morte, entre a coragem de viver e a desesperança, um automóvel, modelo popular, usado, sai em média por R$ 15 mil e garante o conforto necessário para o transporte na cidade.

Mas, dona Marinalva cometeu uma imprudência verbal em sua súbita fama. Disse que “dona Dilma” deu a ela dentes novos com os quais agora sorri feliz. A Folha de S. Paulo registrou textualmente: “Tudo que tenho aqui foi Dilma que me deu". A prótese dentária também estava entre os benefícios, afirma o jornal.

No entanto, uma leitura mais apurada do título da notícia depois do clique (“Sertaneja diz que ganhou prótese antes de gravar com Dilma para a TV”) diz muito da tentativa da mídia em geral de dizer meias verdades. A chamada estampada na página principal da UOL vai na mesma linha: “Mulher diz que ganhou dentes antes de gravar com Dilma”. Quando se lê a notícia, uma manobra narrativa do repórter garante o efeito desejado da suspeita cravada nas manchetes. A frase: “Tudo que tenho aqui foi Dilma que me deu”.

Vamos ser sinceros? O que dona Nalvinha, como é conhecida na comunidade, quis dizer com isso? Que Dilma tem tempo para ficar distribuindo benefícios pessoais numa zona rural da Bahia? Ou que o conjunto dos benefícios que a sertaneja tem recebido juntamente com outros moradores do sertão reflete uma política social do governo federal para combater séculos de exclusão e submissão dessa parcela do povo?

Se o leitor preferir, pode ficar com a meia verdade da Folha, ou seja, dona Nalvinha recebeu, apenas e tão somente ela, uma prótese dentária e a ampliação de seu fogão à lenha dias antes da visita presidencial numa clara demonstração de compra de voto por parte da petista. Em plena campanha eleitoral, isso é crime e pode terminar em cassação da candidatura. O jornal tenta provar sua tese de compra de voto ao afirmar que, confrontada com a suspeita, dona Nalvinha teria “mudado sua versão”. Ora, ela não mudou versão nenhuma. Pelo contrário: reafirmou. Para a sertaneja, quem trouxe os benefícios que melhoraram sua vida tem nome e endereço: Dilma Roussef, Brasília.

Caso o leitor prefira a outra parte da verdade, poderá com isenção constatar que nos últimos doze anos foram construídas quase dois milhões de cisternas no Nordeste. A região foi palco ainda de programas sociais de grande alcance como o Água Para Todos, Luz Para Todos e Brasil Sorridente, sem falar do Bolsa Família, tema de debates apaixonados. Se isso não é política pública, do que estamos tratando?

Dona Nalvinha estava feliz no dia da visita presidencial, com um sorriso comovente. E é claro que na condição de cidadão e eleitor tenho o direito de saber toda a verdade. Afinal, a prótese dentária já estava programada no âmbito do Brasil Sorridente ou foi um benefício individual, uma manobra de última hora somente para melhorar a foto da campanha? As cisternas na casa de dona Nalvinha foram construídas só para ela ou mais gente foi beneficiada? O fogão ecológico é um privilégio dela?

Em nenhum momento essas questões são abordadas na reportagem, o que demonstra uma apuração de foca. Curioso do jeito que sou, tenho vontade de conhecer Batatinha e dona Nalvinha. Quem sabe eu tenha a sorte de Lula e Dilma e também saboreie uma carne de bode? De quebra, faço um selfie com ela.

Marco Piva é jornalista
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