DIREITO DESPORTIVO
Pau de selfie nos estádios: vilão?
Enquanto países europeus tomaram medidas efetivas contra a violência, futebol brasileiro optou pelas simples proibições
Gustavo Lopes Pires de Souza - 30/01/2015 - 14h35

A grande sensação das férias de verão no Brasil tem sido o “selfiestick”, mais conhecido como “pau de selfie”.

Assim como grandes sucessos musicais de verão como “A Festa” e“Explode Coração”, o “pau de selfie” chegou aos estádios brasileiros.

Entretanto, a utilização do “selfie stick” está proibida na grande maioria dos estádios brasileiros diante do entendimento de que poderia ser utilizado como uma arma e prejudicaria a segurança nos locais dos eventos esportivos.

O fundamento legal para a medida está no artigo 13-A, inciso II, do Estatuto do Torcedor que proíbe o porte de objetos suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência.

A grande questão é avaliar se o “pau de selfie” é de fato um instrumento hábil a causar violência nos estádios de futebol.

Ano após ano, a violência é presença constante no futebol brasileiro. Já tiraram dos estádios as hastes das bandeiras, as bebidas alcoólicas, as torcidas rivais e a violência persiste.

Na contramão do mundo, ao invés de se preocupar com o conforto dos torcedores, com melhor preparo dos agentes públicos de segurança e com a contratação de segurança privada, o futebol brasileiro optou pelo caminho das proibições.

Na Inglaterra, em alguns estádios, como o do Arsenal, o “selfiestick” foi proibido não pela violência, mas, para impedir que sua utilização prejudicasse a visibilidade dos torcedores durante os jogos.

O fato é que as autoridades brasileiras ainda não perceberam que a questão da violência não se resume a momentos circunstanciais potencializados pela bebida alcoólica, por uma haste de bandeira ou pelo “pau de selfie”.

Vale dizer que o potencial de violência do “selfie stick” é o mesmo de um radinho, de suas pilhas, de um celular ou de um cinto.

A violência no futebol é um fenômeno multifacetado e que merece medidas específicas, como as adotadas pela Inglaterra na década de 80 após a conclusão do Relatório Taylor, minucioso estudo da violência no futebol inglês e que apontou suas causas e soluções.

Quase trinta anos depois, a Inglaterra tem a liga de futebol mais valiosa e rentável do mundo e a violência, outrora generalizada, hoje é raríssima.

Já passou da hora do futebol brasileiro se inspirar nos bons exemplos de Inglaterra, Espanha e Estados Unidos e extirpar a violência dos estádios, eis que com ou sem “pau de selfie”, infelizmente, a violência tende a permanecer.

Gustavo Lopes Pires de Souza é mestre em Direito Desportivo pela Universidade de Lérida (Espanha), diretor do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo e coordenador do curso de gestão e direito desportivo da SATeducacional.Autor do livro "Estatuto do Torcedor: A Evolução dos Direitos do Consumidor do Esporte", é auditor do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) da (CBAt) Confederação Brasileira de Atletismo.
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