LINGUAGENS COMPLEMENTARES
Advogado autor de romance policial conta como une a carreira jurídica à literária
João Novaes - 18/02/2012 - 14h35

 

Conciliar o prazer por obras literárias com a necessidade de se aprofundar nos livros de direito sempre foi uma dificuldade para estudantes universitários e recém-formados. Por muitas vezes, a linguagem rebuscada e o chamado “juridiquês” acabam por ganhar espaço no estilo do jovem advogado em vez de uma oratória e escrita mais coloquiais. A bagagem literária deixa de ser ocupada por romances de ficção para dar lugar a livros técnicos e objetivos. E, também inevitável, adota-se uma maior formalidade.

Mas nem sempre precisa ser assim. É possível e saudável conciliar essas duas linguagens, uma fortalecendo a estrutura da outra. E tornar-se um advogado também não significa enterrar o sonho de arriscar-se a iniciar uma carreira literária. Pelo contrário. Mas deve-se estar preparado para sacrifícios, dedicar-se muito e não ter medo de começar. São alguns dos conselhos do advogado especialista em sucessões familiares, Luiz Kignel, da PLKC Advogados.

Após ter atingido sucesso em seus quatro livros anteriores, todos sobre direito, mas com linguagem coloquial que agradou a leigos e juristas, criou coragem e realizou um antigo sonho. Vai publicar seu primeiro romance policial. A Morte Tudo Resolve (editora Alameda, 356 páginas) será lançado no dia 20 de março, no Shopping Pátio Higienópolis, e conta a história de Thomas Lengik, um jovem advogado em começo de carreira que se vê envolvido, sem intenção, na morte de um importante industrial, que o inclui, aparentemente sem razão, em seu testamento.

Em entrevista ao Última Instância, Kignel conta sobre as dificuldades de escrever um livro e as particularidades dessa atividade com a carreira de advogado. Alerta que é preciso cuidado para não afetar seu dia a dia, seja no trabalho quanto em casa, e dá conselhos aos jovens advogados que queiram se arriscar com a literatura.

“Sempre gostei muito de escrever. Depois dos meus livros de direito, surgiu o desejo de fazer uma ficção contando alguma coisa sobre meu escritório. Fiquei meses e meses pensando em uma história legal até ter coragem a começar a escrever, mas sem contar para ninguém. Porque dá medo. Quando estava no sexto ou sétimo capítulo, comentei com um amigo, Maurício Machado, que publicava meus livros de direito. Ele pediu para ler e passou a ser um grande incentivador. Aí fui pegando o gosto e tocando”, afirmou Kignel.

Para o primeiro passo, segundo o advogado, é necessário ter coragem e contar com um empurrãozinho. “Comece. Ontem. Sente e escreva. Sem ter vergonha. E escolha alguém, um dia, com quem você tenha confiança, para ler seu texto. Mas escreva. Penitencio-me por não ter começado antes”, incentiva.

É, entretanto, necessário organizar seu tempo para conseguir completar a história e se dedicar de corpo e alma ao seu desenvolvimento. “O problema do livro é que ele atrapalha sua vida profissional. Dava-me tanto prazer que cheguei a marcar reuniões fictícias para poder sair do escritório e ir para a casa trabalhar nele. Porque é impossível chegar em casa depois do trabalho às 20h, jantar com a família e ir escrever. Esqueça. No início, só escrevia nos finais de semana, mas era pouco. E, de noite, até conseguia, mas desligava o computador às 2h acordado, porque você vai dormir excitado com a história. Mas para acordar às seis da manhã era difícil. O livro te consome”, admitiu.

Kignel é enfático ao indicar que há uma condição essencial para se lançar na carreira de escritor: é preciso ler. “Como quem quer advogar tem de estagiar, ou quem quer clinicar tem de fazer residência. E eu sempre li muitos livros, policiais principalmente”.

Para Kignel, advogado que não lê – de tudo – está na profissão errada. “Lembro que aprendíamos que tínhamos de mudar. Recém-formado, cheguei a pensar em parar de ler livros para ler apenas temas relacionados a direito, já que ficaria sem tempo de ler nada. Em viagens, minha esposa levava romances e eu levava livros de direito. Achava que era importante. Mas não dá, você acaba virando um chato. Porque tudo acaba falando no formal, no fim vai para cama de terno. (risos)”.

O advogado afirma que uma de suas estratégias para tornar a obra mais interessante foi nunca ter parado de escrever um capítulo no meio. “Sempre que olhar a última linha de um capítulo, verá que ele tem algo que te deixa com vontade de ler o próximo. Sempre tive o cuidado de deixar um dúvida, uma interrogação”.

O principal conselho de Kignel para os iniciantes é tentar começar de forma mais modesta, para se preparar para a verdadeira empreitada que é escrever uma trama. “Escrevi muitas crônicas antes de escrever o livro. Eu não começaria com um livro. Começaria com crônicas ou contos. Porque o livro é difícil. Não impossível. O problema é que ele tem de ser interessante o tempo inteiro. O leitor nunca pode chegar em determinado trecho e querer passar rápido porque está achando ele chato. Um livro tem 500 mil toques, um conto, cem vezes menos. No livro, não dá para perder a narrativa”, alerta.

Mas todo o esforço, segundo o advogado, compensa. “A realização foi tremenda. Quando recebi o livro, foram lágrimas nos olhos. Estava aqui no escritório, fechei a porta e comecei a chorar. E ele estava na gaveta há dois anos”, afirmou, um pouco emocionado, afirmando que nada na vida se consegue sozinho.

Um outro importante conselho dado por Kignel aos aspirantes a escritores é que é evitem ao máximo usar termos rebuscados para impressionar o leitor. E o mesmo vale para a carreira profissional do advogado na relação com seus clientes. “Tenho quatro livros de direito, todos voltados para o leigo. Os advogados os adoram, mas os clientes muito mais. Digo sempre para o jovem advogado que não se advoga com o Código Civil em cima da mesa. Ele é uma fonte de consulta para entender a regra do jogo. Jamais explique ao cliente um problema item por item. Ele tem que entender”.

Essa atitude, para Kignel, é prejudicial à carreira. “Muitos advogados adoram o complicômetro, o famoso juridiquês. Acham que fica mais chique falar em latim, usar palavras complicadas. Aposta que se fazer de ‘inteligente’ deixa os honorários mais caros. Eu acho que só afasta o cliente de você. Por isso sempre tenho essa linha de tentar me expressar o mais fácil possível. E isso se expressa na redação do texto do próprio livro, que é uma redação fácil”.

Para o advogado, livros jurídicos como o seu ‘E Deus Criou a Empresa Familiar’ (Integrare, 232 páginas), que procuram aproximar o leitor do mundo jurídico com uma linguagem mais clara e atrativa, são uma tendência positiva para o mercado editorial.

Como todo advogado, Kignel não esconde que uma de suas fontes de inspiração é o norte-americano John Grisham, autor de A Firma, O Processo, O Dossiê Pelicano, O Júri. O seu preferido é O Último Jurado (Rocco Editora, 391 páginas). “E adoro crônicas. Sou fã do Luiz Fernando Veríssimo. Viajo muito a trabalho e ele é meu companheiro de viagens”, diz o advogado.

A publicação de “A Morte Tudo Resolve” nem de longe foi suficiente para satisfazer as necessidades literárias de Kignel. Ele já se encontra em fase de terminar seu segundo livro, “A Morte Não Toca Violino”, que se passará um pouco após a primeira história, e terá Thomas em uma fase mais crescente da carreira e mais espiritualizado. O segundo livro independe da primeira história, mas além de Thomas, alguns personagens do primeiro livro também permanecerão na trama.

Alter ego

O autor não esconde que muito da personalidade e história de vida de Thomas é baseado em si mesmo, recurso mais do que natural na construção de personagens. “Em toda ficção há um pouco de realidade. E passei muito pelo que Thomas passou. Casei estudando, no quinto ano da faculdade. Como ele, tinha de selecionar contas para pagar. Quando escrevi que Thomas avaliava qual multa ia ser menor é porque fiz muito disso recém-casado”, afirma.

“Quanto ao Thomas, tomei uma proteção pessoal. Porque me vi muito nele em meu início de carreira. E ficaria muito mal falar de você mesmo. No próximo livro, “A Morte Não Toca Violino”, ele começará a se desprender de mim, acho ele mais corajoso do que eu. Fará coisas que eu na faria”, conta o advogado. Mas Kignel admite que se tivesse elaborado Thomas – que na história é um personagem quase perfeito, incorruptível e politicamente correto sem deixar de ser instigante – fosse mais próximo de um Mandrake, personagem histórico de Rubem Fonseca, poderia prejudicar sua imagem profissional, tão grande é a identificação.

O livro, de fato, tem referências a diversos lugares que o autor visita, frequenta e faz refeições. Alguns dos personagens são referências a amigos reais, que possuem em comum algum sobrenome ou endereço. “E tem algumas brincadeiras escondidas. Por exemplo: eu detesto manga, não gosto dessa fruta nem na mesa. E o Thomas adora, assim como minha mulher. Já a esposa dele concorda comigo nesse caso”, revela.

O universo do direito criminal é tradicionalmente uma fonte para diversos romances. Mas em “A Morte Tudo Resolve”, Kignel também usou casos do direito familiar para rechear a história. E garante que sua área serve também como inspiração inesgotável.

“Toda vez que falamos em mistério, a gente acaba entrando no criminal. Tudo gira em torno do crime. Mas a área do direito de família é muito rica. E posso dizer: o que eu já vi, o que se passa na vida real, não dá para passar tudo em novela. Essas novelas de crimes entre irmãos, filhos sumidos, relações adulterinas, trocas de bebês parecem fantasiosas? Tudo isso já vi na vida profissional. E olha que nem sou da área de litígio”.
 

A Morte Tudo Resolve A Morte Tudo Resolve
Autor:
Luiz Kignel
Editora: Alameda
Quanto: R$ 56,00

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