SISTEMA PRISIONAL
Dias de visita retrata relação entre mulheres de presos e moradores de cidade do interior paulista
Da Redação - 22/02/2013 - 17h37

 

O livro “Dias de Visita – uma sociologia da punição e das prisões”, da pesquisadora Giane Silvestre, trata sobre o impacto social dos presídios na cidade de Itirapina (SP), além da relação entre os moradores da cidade com o sistema carcerário a pesquisadora também desenvolve um olhar sobre as mulheres de presos que vão para o município nos dias de visita dos presídios e como os moradores se relacionam com estas “estrangeiras”.

Leia abaixo parte da história de Julia, uma das mulheres de presos entrevistadas pela pesquisadora.

Julia

Julia foi a primeira mulher com quem conversei, ela estava morando no hotel mencionado havia oito meses, desde que seu marido fora transferido para a penitenciária em Itirapina. Ela estava grávida de seis meses do seu segundo filho, o primeiro tinha quase 18 anos e morava em São Paulo. Julia começou a me contar sua história dizendo que já passara muita dificuldade nesses dez anos em que seu marido estivera preso, largara o emprego, deixara seu filho mais velho vivendo em São Paulo e estava sempre com dificuldades financeiras. O marido de Julia já passara por mais de dez unidades prisionais diferentes e desde que ele fora transferido para unidades do interior, Julia o acompanhava em cada cidade, embora ela já tenha passado alguns períodos viajando para realizar as visitas, ela sempre buscava se mudar para a cidade onde ele estava preso.

Logo depois, Julia começou a me falar do amor que sente por seu marido, pois segundo ela, tem que amar muito para aguentar. Julia considera que estes sacrifícios valem a pena pelo amor e também por acreditar que seu marido se regenerou, pois nos 10 anos em que está preso, nunca aprontou nada na cadeia. Ao falar da sua confiança no comportamento dele, Julia começou a me contar histórias sobre mulheres que levam drogas para dentro das unidades. Segundo ela, o comércio de drogas dentro da cadeia é algo muito comum e algumas mulheres são a principal via para a entrada destas drogas. Julia disse que não concorda com essa prática e que nunca levou nenhum tipo de droga para seu marido preso, embora tenha colegas que o façam. Perguntei então a Julia como era possível entrar com drogas na unidade, sendo que havia uma revista para todas as mulheres que ali entravam e ela me respondeu: Tem mulher que coloca tanto na frente como atrás! Você entende o que eu tô falando, né? Tenho uma amiga que botou trezentas gramas na frente e duzentas gramas atrás.

Julia falou então do procedimento de revista para entrada na unidade, segundo ela, este momento é muito humilhante, no qual todas as mulheres ficam nuas diante de agentes penitenciárias e devem se agachar repetidamente na frente das agentes para que elas observem se não há nada dentro de suas genitálias . Além disso, todas as mulheres devem se sentar nuas em banco com detector de metais. Julia voltou a afirmar que é bastante comum encontrar mulheres que levam drogas nas genitálias e muitas vezes acabam sendo flagradas no momento da revista e presas. Julia me disse ter várias colegas que caíram assim e concluiu que não vale a pena correr o risco, pois daí fica preso o marido e a mulher. Segundo Julia, algumas vezes as agentes penitenciárias, ainda que não vejam nada de ilícito no momento da revista, fazem um tipo de coerção simulando ter identificado a presença de algo, e assim, muitas mulheres acabam se entregando. Tem que ficar esperta, porque eles dão um psicológico e elas acabam se entregando.

Foi nesse momento que Julia começou a me contar que seu marido não fazia parte do PCC e de nenhum outro coletivo, por isso ele era chamado de coisa, termo que, segundo ela, é usado para determinar todos os presos que não fazem parte do PCC e, assim como eles não se misturam lá dentro, eles falam pra elas não se misturar, eles não gostam. Julia me explicou, então, a sua relação com a dona do hotel sobre a sublocação e administração da casinha para onde vão as mulheres que não são companheiras de membros do PCC. Perguntei então a Julia se nas viagens para as penitenciárias elas também não misturavam e ela me explicou que os ônibus fretados, geralmente são pagos pelo Partido e somente as visitas dos membros do PCC é que podem fazer uso, mas quando a viagem ocorre em ônibus de linhas convencionais muitas vezes as mulheres viajam juntas, mas daí fica cada uma quietinha no seu canto.

Julia continuou me relatando fatos sobre as relações entre presos e sua mulheres, segundo ela, assim como as condutas dos presos são observadas e cobradas dentro da cadeia pelos próprios presos, as condutas de suas mulheres também são cobradas nas ruas.  

Se uma mulher não se comporta fora da cadeia eles ficam sabendo lá dentro, daí eles fazem uma reunião pra decidir o que fazer e dão a ordem pra outra mulher acertar as contas.

Perguntei então a Julia que tipo de comportamento era esperado das mulheres e ela citou uma série de exemplos como não ficar andando sozinha pela cidade a noite, não ir pra bar, não ficar de conversa com outros homens, essas coisas... Perguntei ainda como é que os presos ficam sabendo o que suas mulheres estão fazendo nas ruas e ela me respondeu as próprias mulheres falam.

Apesar de me dizer, logo no início da conversa, que seu marido não fazia parte do PCC, Julia tentou me explicar o funcionamento do Partido e também falou dos motivos alegados pelo seu marido para não fazer parte do grupo. Segundo ela, existe uma hierarquia de funções dentro das cadeias e fez uma comparação com os poderes legislativo e executivo: tipo na cidade não tem os vereadores e o prefeito? Lá é mais ou menos assim. Julia falou também que os presos devem pagar um tipo de mensalidade ao piloto , um valor que ela acredita estar em torno de mil reais e que também considera muito alto, daí se o cara não consegue pagar cai pra família também, a família tem que se virar. Julia disse que seu marido não é mais bandido, ela disse acreditar que ele se regenerou e que cobra dele um bom comportamento dentro da prisão, pois: segunda chance eu já falei pra ele que eu não dou, não quero passar o resto da minha vida na porta da cadeia.

Depois disso, Julia começou falar dos preconceitos que os presos sofrem na sociedade e, consequentemente, seus familiares. Falou da dificuldade em conseguir emprego, embora acredite que isso também esteja relacionado ao seu nível de escolaridade, já que ela não completou o ensino médio. As únicas oportunidades que disse ter encontrado foram como faxineira, no entanto, ela prefere não revelar aos patrões que seu marido está preso, eles pensam que a gente vai lá pra roubar, ou então que a gente ta olhando pra falar pro marido as coisas que tem lá. Além dos preconceitos que Julia tem enfrentado durante estes dez anos, ela também passou por dificuldades financeiras que a levaram a dormir em albergues municipais e até mesmo junto aos portões das penitenciárias.

Julia também me contou a experiência que viveu em algumas rebeliões, ela chegou a dormir na porta da penitenciária à espera de notícias sobre seu marido e disse ter muito medo que outras rebeliões ocorram. Rebelião é uma coisa muito feia, é muita morte, muito sangue, eles matam mesmo. Não sei de onde sai tanta faca na hora da rebelião, eles fazem as facas, escondem na parede e na hora pegam. Julia falou também da importância da presença da família para o preso, e ela considera que eles sentem muita falta deste apoio. Contou que quando um preso não tem família ou então não recebe visitas, ele sempre tenta fazer amizade com alguém da família do outro preso, pra ter uma companhia. Para Julia, a família é uma peça fundamental para que o preso consiga se manter dentro da cadeia, principalmente para que ele não faça nenhuma besteira. Neste caso, Julia associava a expressão fazer besteira com o envolvimento em atividades ilícitas dentro da unidade.

Julia também me explicou como se dava o procedimento de entrada na unidade e a organização das filas, que acompanhei em idas a campo posteriores. Como seu marido estava detido na ala de progressão penitenciária, onde o número de presos é menor do que nos pavilhões do regime fechado, não havia muita espera na fila e nem necessidade de retirar a senha com antecedência e, ainda, há visita todos os sábados e domingos. No entanto, Julia disse que já madrugou muito para chegar cedo às filas das unidades por onde seu marido esteve preso e garantir uma das primeiras senhas, e até hoje tem o hábito de ser uma das primeiras a chegar, mesmo que não enfrente mais filas, eu quando dá quatro, cinco horas da manhã já tô despertada andando pela casa. Ela me explicou que no regime fechado, onde as filas são maiores, as senhas começam a ser distribuídas na quinta-feira pela tarde, às vezes não dão senha e só anotam o nome no caderninho, mas a maioria das mulheres só começava a chegar na sexta-feira, já que costumam vir de outras cidades e Julia acredita que o número de mulheres na fila ultrapassa a casa dos trezentos. No regime fechado da unidade, segundo ela, as visitas acontecem de forma alternada entre finais de semana com apenas um dia de visita e finais de semana com dois dias, a dobradinha.

Passada cerca de uma hora e meia desta minha primeira conversa com Julia, começamos a nos despedir, me levantei e agradeci a Julia e a Claudia, que ficou ali o tempo todo, mas praticamente não falou, apenas concordava, acenando com a cabeça quando Julia a indagava. Combinamos que no próximo sábado eu iria até a casinha para conhecer as colegas e minha chegada lá já foi relatada neste trabalho.

Essa é uma parte da história de Julia que certamente não representa toda a complexidade de sua trajetória mas, sem dúvida, traz alguns elementos que a marcaram. Encontrei-me e conversei com Julia diversas vezes durante os trabalhos de campo, entretanto, tratarei destes diálogos em outro momento, por ora quero oferecer ao leitor um pouco da história destas mulheres com as quais convivi, evidenciando algumas de suas características e suas maneiras de lidar com os enfrentamentos e as dificuldades que as rodeiam nesses deslocamentos.

Dias de Visita – uma sociologia da punição e das prisões Dias de Visita – uma sociologia da punição e das prisões
Autor:
Giane Silvestre
Editora: Alameda
Quanto: R$ 39,00

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