INTÉRPRETES DO BRASIL
O resgate de expoentes do pensamento social do século XX
Luciana Araujo - 24/05/2014 - 02h08

Lançamento da Boitempo Editorial, Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados (414 págs) traz um resgate histórico-biográfico de 27 expoentes do pensamento social brasileiro do século XX. Organizado por Lincoln Secco e Luiz Bernardo Pericás, o volume apresenta novos olhares sobre as influências decisivas para a obra de intelectuais como Nelson Werneck Sodré, Florestan Fernandes, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Hollanda, Rui Mauro Marini, Milton Santos, Antônio Cândido, Darcy Ribeiro, Paulo Freire e outros estudiosos consagrados da realidade brasileira. E apresenta também interpretações sobre autores que não conquistaram espaço na academia brasileira, mas tiveram importantes leituras sobre o país, como Rômulo Almeida, Maurício Tragtenberg, Astrojildo Pereira e Octávio Brandão.

Na releitura da historiografia militar de Nelson Werneck Sodré, Paulo Ribeiro Cunha organiza em um breve ensaio o desenvolvimento da tese do "caráter democrático das forças armadas" por parte do general comunista reformado e autor do também fundamental História da Imprensa no Brasil.

Thiago Lima Nicodemo resgata a leitura de João Cezar Castro Rocha sobre a ruptura de Sérgio Buarque de Hollanda com a influência freyriana que levou à atribuição de "positividade ao resultado do processo de colonização" verificada na primeira edição de Raízes do Brasil (1936). Ele destaca ainda a importância da contribuição de Hollanda para "a identificação das raízes arcaicas brasileiras" como "passo fundamental para superá-las", possibilitando a construção de um projeto de Nação efetivamente liberado das amarras coloniais, de caráter moderno, inclusivo e democrático.

Logo na sequência, o processo de desenvolvimento da obra do intelectual orgânico das oligarquias nordestinas é dissecado por Mario Helio Gomes de Lima, que destaca que "o projeto de interpretação" de Gilberto Freyre sobre o Brasil "não esteve completo" até a definição das teorias que são os pilares do pensamento freyriano: a mestiçagem, o tropicalismo e o tempo tríbio.

O contraponto ao mito freyriano da democracia racial aparece um pouco à frente, com o artigo de Haroldo Ceravolo Sereza sobre o caráter estruturante do racismo para o capitalismo brasileiro, brilhantemente descrito por Florestan Fernandes na Incorporação do Negro na Sociedade de Classes. Haroldo resgata também a síntese desenvolvida pelo intelectual orgânico dos explorados e oprimidos sobre o regime autocrático-burguês gestado pelo capitalismo brasileiro. Regime sob o qual ainda vivemos, escancarado no arrasto de Cláudia Ferreira da Silva (cujo corpo inerte já tinha sido jogado no porta-malas de uma viatura policial "para ser levado ao hospital"), nos linchamentos de negros pobres apelidados por nossa elite patrimonialista como "justiçamentos", no perfil majoritariamente negro da população carcerária que já é a quarta maior do mundo.

A coletânea traz ainda uma apresentação do processo de desenvolvimento da análise de Caio Prado Júnior sobre o alongamento da construção do Estado-Nação no Brasil e seus elementos: “a centralidade às massas populares e a importância de sua integração à realidade do país”, evidenciada no protagonismo popular nos processos de revolta e sublevação como a Cabanagem (PA), a Balaiada (MA) e a Revolta Praieira (PE); a importância da questão agrária e o papel do latifúndio no desenho político do capitalismo nacional; o choque de interesses entre a elite dirigente e o povo; a independência sem ruptura e sem povo que perpetuou no país “livre” as práticas da monarquia portuguesa; a estruturação de uma República “colonizada”, estruturada para atender a interesses externos. O texto de Péricas e Maria Célia Wider destaca ainda que, apesar das acusações de reformismo que recebeu por defender que o acumúlo de reformas populares poderia desaguar numa transformação social não insurrecional, Caio considerava um erro a análise pecebista da viabilidade de uma revolução democrático-burguesa no país e apresentou em A Revolução Brasileira uma análise completa da ruptura como “processo” e não como o etapismo defendido pelo PCB e o estalinismo.

Sente-se falta de Josué de Castro e sua brilhante Geografia da Fome, da genial defesa da Amazônia e de um modelo de desenvolvimento efetivamente comprometido com o meio-ambiente construído por Aziz Ab'Saber, de Chico de Oliveira e sua Crítica à Razão Dualista.

Chama a atenção também a ausência completa de mulheres no recorte de pensadores de destaque sobre a trajetória nacional. E dentro do perfil de “intérpretes” escolhido pelos organizadores certamente se encaixariam nomes como Patrícia Rehder Galvão (a Pagu) – que encontrou na arte a forma de propagandear as questões candentes à classe trabalhadora, e como Caio Prado sofreu fortes críticas e resistência dentro do PCB -, Rose Marie Muraro (que dedicou a vida a dar voz aos oprimidos em geral e às mulheres em particular, e hoje enfrenta difícil situação financeira e de saúde, mas continua ativa) ou Anita Leocádia Prestes e suas análises da atuação de seu pai e do Partido Comunista.

Tais ausências, entretanto, não retiram a importância do trabalho disponibilizado aos leitores. E quem sabe não podem ser tema de um segundo volume sobre os intérpretes do Brasil?

intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados
Autor:
Lincoln Secco e Luiz Bernardo Pericás
Editora: Boitempo Editorial
Quanto: R$ 58,00

Compre na Livraria Última Instância por R$ 49,30

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