PREFEITURA DESCONHECE
Moradores do Pinheirinho denunciam morte de criança por gás lacrimogêneo
Daniella Cambaúva - 23/01/2012 - 18h26
Dez pessoas que residiam no terreno do Pinheirinho, em São José dos Campos, afirmam ter presenciado a morte de uma criança de menos de um ano de idade por conta do excesso de gás lacrimogêneo jogado pela PM (Polícia Militar) durante um confronto. A criança teria morrido na tarde do último domingo (23/1) no local onde a Prefeitura está oferecendo assistência aos moradores, em um terreno localizado a poucos metros da ocupação.
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Procurada pelo Última Instância, a Secretaria de Imprensa da Prefeitura disse não ter conhecimento sobre a morte da criança, e afirmou que foi oferecida assistência hospitalar àqueles que ficaram feridos.
No dia seguinte ao início da operação da PM para reintegração de posse da área, a preocupação dos moradores é conseguir entrar em suas casas para retirar seus pertences e encontrar um local seguro para ir com suas famílias.
A Prefeitura oferece um lugar como abrigo provisório, mas não são todos os moradores que querem ficar lá. Alguns deles afirmaram à reportagem do Última Instância que têm medo de ficar nesse albergue por conta da violência que testemunharam no dia anterior.
Confira a galeria de imagens da desocupação do Pinheirinho:
A área de mais de um milhão de metros quadrados fica na Zona Sul de São José dos Campos, Vale do Paraíba, a 97 quilômetros de São Paulo, e pertence ao empresário Naji Nahas. A ocupação foi iniciada há oito anos. Desde então, milhares de casas e barracos foram construídos ali – estima-se que seis mil pessoas tenham sido desalojadas.
A reintegração de posse foi iniciada no último domingo (22/1), às 6h, cumprindo determinação da decisão judicial que derrubou o entendimento do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) de suspender, na sexta-feira (20/1), a ordem de desocupação.
Sem chance de reação
Os moradores relatam que foram surpreendidos com a chegada da PM. Eles não estavam esperando a decisão judicial que determinaria a reintegração de posse e afirmam que não houve resistência porque os policiais já estavam com armas de bala de borracha e cassetetes dentro das casas ordenando a saída.
“A gente não teve espaço para reagir. Não pegamos nada, só os documentos. Peguei meu celular por sorte porque estava dentro da bolsa”, disse Mônica Oliveira Martiniano, uma das moradoras. Empregada doméstica, ela morava no Pinheirinho desde 2005 com quatro de seus seis filhos – o caçula tem quatro anos e o mais velho, 15. Mônica contou também que desmaiou quando policiais entraram em sua casa. Ela e os filhos não têm familiares na cidade e passaram a noite na casa de um pastor que mora na região.
Não é difícil encontrar ferimentos por balas de borracha entre os moradores. Uma delas se aproxima e mostra a perna, outra mostra o punho ferido. Contam que a polícia pedia que saíssem de casa levando apenas documentos. “Fomos revistados. Eu, meu marido, meus filhos de seis, de sete e de 12 anos. Só levamos documentos”, contou.
Ontem as casas foram lacradas depois da retirada dos moradores. Na frente do cordão colocado pela PM para impedir a entrada no Pinheirinho, um casal se desesperava por ter se dado conta de que, ao contrário dos vizinhos, não haviam recebido um número de identificação que permitiria o acesso ao local para retirada dos pertences. O homem, sua esposa e uma criança se preparavam para ir à fila de assistência da Prefeitura. Como os demais moradores, eles estavam apenas com os documentos, com a roupa do corpo – a criança não teve tempo de pegar nem um chinelo, nem uma camiseta – e a mulher lamentava ter esquecido seu remédio dentro de casa.
A entrada no Pinheirinho é permitida apenas para a polícia, para a Guarda Municipal de São José dos Campos, para o Corpo de Bombeiros e para veículos da Prefeitura. Os moradores que têm identificação e têm condições de pagar um caminhão de mudança conseguiram retirar seus pertences. Os demais precisam usar o serviço da Prefeitura, que levará os objetos a um galpão.
Os acessos à região, que podem se dar pela Estrada Velha Rio-São Paulo ou por dentro da cidade de São José dos Campos, foram abertos nesta segunda-feira por volta das 12h.
Os moradores que não quiseram ir ao abrigo da Prefeitura foram para igrejas da região do Pinheirinho ou para a casa de vizinhos e parentes. A Secretaria de Imprensa da Prefeitura informou que passagens de ônibus estão sendo distribuídas para os moradores que desejam regressar à cidade de origem.
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