II SIMPÓSIO INTERNACIONAL
Tema da novela Salve Jorge, tráfico de pessoas é ignorado pela sociedade
Fabiana Barreto Nunes - 26/10/2012 - 08h50

Durante o II Simpósio Internacional para o Enfretamento ao Tráfico de Pessoas, o presidente da Comissão de Acesso à Justiça e à Cidadania do CNJ ( Conselho Nacional de Justiça), conselheiro Ney Freitas chamou a atenção para o fato da sociedade brasileira ignorar a existência do tráfico internacional de pessoas. O evento acontece nesta quinta-feira (25/10) e sexta-feira (26/10) no TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), em São Paulo.

Foto: Salve Jorge/TV Globo
A nova novela da Globo, Salve Jorge, abordará o Tráfico de pessoas para exploração sexual.

“Parece que não existe o tráfico de pessoas no Brasil. Desgraçadamente talvez seja a novela [Salve Jorge, que estreou na TV Globo nesta semana] quem irá disseminar e provocar uma discussão sobre esse assunto, tudo isso deveria ser provocado por todos nós que compomos a sociedade brasileira", disse Freitas.

O conselheiro do CNJ deu a declaração após contar um caso emblemático ocorrido no estado de Goiás, que serviu, inclusive, de inspiração para a autora da novela, Glória Perez, criar a personagem Jéssica, interpretada pela atriz Carolina Dieckmann. No caso real, uma jovem foi aliciada para prostituição pelas próprias irmãs e morreu abandonada na Espanha após uma overdose induzida de drogas.

Diante de uma platéia que reuniu magistrados, promotores, defensores públicos e representantes da sociedade civil presentes no evento, Freitas destacou ainda a ineficiência das instituições brasileiras para combater o tráfico de pessoas. Segundo ele, faltam, por exemplo, dados estatísticos sobre o crime e são poucas as informações disponíveis a respeito das sentenças proferidas sobre a matéria. Conforme o conselheiro, uma das prioridades da comissão que preside é criar um robusto banco de dados reunindo estatísticas sobre tráfico de pessoas.

Outro ponto que deve ser tratato pelo país, na opinião de Freitas, é a ineficiência do sistema normativo para enfrentar o crime . “É necessário motivar a operação legislativa para que seja proposta uma norma mais severa que sancione com mais gravidade esse tipo de crime”, destacou Freitas.

Confira o depoimento do pai que levou 23 dias para conseguir trazer o corpo da filha morta na  Espanha para o Brasil

Segundo o conselheiro, o Simpósio foi criado justamente para "estabelecer uma reflexão" para a necessidade de alterar a legislação e sensibilizar o judiciário, Ministério Público e polícia em relação a um crime para o qual os órgãos não estão acostumados a lidar. Ele afirmou que a Comissão do CNJ quer trabalhar para "sensibilizar" diversos órgãos da esfera pública para que o Estado possa enfrentar de modo adequado o problema.

Freitas defendeu a importância desta estratégia e fez um paralelo com o projeto da Comissão, que trata da violência contra a mulher e das dificuldades para sensibilizar o próprio judiciário, “Existem magistrados que tratam a violência contra a mulher como um crime menor, como se historicamente, tragicamente, o destino da mulher fosse ser violentada. Eles questionam a criação de delegacias da mulher, juizados especializados, sob alegação de estão sendo tirados recursos de outras varas com competências mais importantes", afirmou.

“Espero que não sejamos arrastados pelas novelas,e que tenhamos possibilidade de protagonizar o enfrentamento do tráfico de pessoas de forma absolutamente consciente, com seriedade e envolvimento emocional, nesse projeto”, completou.


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