Íntegra do novo depoimento de Cristian sobre morte do casal Richthofen
Rosanne D'Agostino - 19/07/2006 - 23h02
Cristian, seu irmão, Daniel Cravinhos, e Suzane são réus confessos no julgamento do crime, que acontece desde segunda-feira (17/7) no 1º Tribunal do Júri do Fórum da Barra Funda (São Paulo).
Leia abaixo os trechos do novo depoimento:
“Vou contar até o dia 31 de outubro, na minha concepção. Quando eu entrei um pouco nisso, em 2002, fui convidado pela Suzane a participar de um churrasco na casa dela. No fim, ela vira pra mim e fala: ‘Você ajudaria a matar meus pais?’ De primeira, eu não tive a reação de reprimi-la. Nunca imaginei a imensidão que isso fosse tomar hoje. Briguei com meu irmão. Saí da casa dela e fui embora.
Tive a oportunidade de ficar sozinho com Suzane pela única vez, quando acabou o cigarro deles, e eu fui com ela a pé comprar outro. Me senti à vontade com ela de perguntar o motivo de ela falar dos pais de uma maneira totalmente negativa. Não estou acusando a Suzane. Tudo isso que vou dizer agora é o que ela me passou, a causa da ruindade dela com os pais. Ela me respondeu fria, normalmente, que ela não suportava os pais dela pelo fato de ela não ter vida.
A Suzane falou pra mim que, aos 13 anos de idade, o pai dela teria tentado estuprar ela. Ela tinha que fazer tudo escondido, ela não agüentava mais aquilo. E que o único meio pra se livrar daquela vida era ficar sem os pais dela. Eu ainda tentei aconselhar, falei pra ela procurar a delegacia de mulheres. Ela disse que o pai era uma pessoa muito influente e que nada disso ia adiantar.
Eu não tinha o que fazer, eu simplesmente aceitei. Passado todo esse tempo, dia 30, meu irmão chega na minha casa com Suzane dizendo: ´me ajuda, a Suzane quer matar os pais dela, eu amo muito ela [Cristian fica sem ar], eu vou fazer isso com ela!´.
Eu falei pra ele não fazer aquilo e ele não quis me ouvir. Ele dizia que precisava de mim, que se não ele ia preso. Eu perguntei como ele ia fazer isso. Ele disse que ia levar o Andreas pro cibercafé e depois iam pra casa dos pais dela.
Eu cheguei umas 10h40 no cibercafé, antes deles. Eles [Daniel e Suzane] chegaram depois. Ela parecia que ia pro Hopi Hari. Eu falei: ´Vocês vão acabar com a vida de duas famílias!´
No caminho, com as luvas cirúrgicas em mãos, eu também coloquei as meias dadas pela Suzane. Parecia o dia mais feliz da vida dela. Eu não sabia como ia ser, eu acreditava que iriam ser armas de fogo, mas a Suzane pediu pra eu pegar as armas que estavam no porta malas: eram bastões de ferro. Eu cheguei a falar: ‘Além de você fazer isso com seus pais, que te colocaram no mundo, que te deram vida, tem que ser com tanta violência?’ Ela disse que não ia conseguir ter vida com os pais dela.
[Cristian se desespera, chora e não consegue falar]
Ela tinha uma força sobre o meu irmão, todos nós fomos criados com muito amor, muito carinho. Eu não consegui reagir, eu não conseguia brigar com o meu irmão. Todo mundo tem seus defeitos, meu irmão nunca foi de briga. Talvez pela minha falta de experiência eu não fui um bom irmão...
[O advogado dos Cravinhos, Geraldo Jabur, chora junto com seu cliente]
Suzane subiu, para ver se estavam dormindo, esse era o plano. Parecia que o Daniel tava em outro mundo. Ela voltou rápido, eu bati a porta do carro, a Suzane ficou brava: ‘Você quer estragar tudo!’ Eu entrei na casa, andando, batendo os pés, subimos nós três juntos, Suzane na frente, meu irmão no meio e eu atrás. Paramos na porta, Suzane com a mão no interruptor.
Simplesmente a Suzane fez um sinal de positivo. Eu olhei pro meu irmão e gesticulei mais uma vez a minha cabeça [em sentido negativo]. Ele deu a primeira, eu sem saber o que fazer, também fiz. Ele no Manfred, e eu na Marísia.
Então, eu assumo a minha parte perante a execução da Drª. Marísia. Peço a perdão a Deus e até a Suzane pelo que eu fiz. Porque eu acompanhei pelo jornal e eu tenho certeza de que a mãe dela e nem o pai eram tão ruins assim. E se a gente tem pessoas queridas do nosso lado, a gente não ia fazer isso. Acho que tem outro interesse, não sei qual é, de repente, pelo que vi na mídia, sobre os pais dela, não era só a liberdade.
Coloquei um pano no rosto da Marísia. Foi para asfixiar a garganta dela. Não devia ter feito aquilo. Eu só conseguia pensar no Andreas, ele era como meu irmão caçula. Eu jamais admitiria ele ver aquela cena, não queria que ele fosse um menino traumatizado.
[Chora]
Depois, desci peguei dois sacos plásticos e a jarra de água, acho que caiu a ficha do meu irmão. Ele ficou desesperado, tentando acordar o Manfred. Eu joguei água tentando acordar. Isso foi o meu maior desespero. Parecia que não era ele [Daniel]. Descemos na escada, acho que ele pegou jóias. Eu não conhecia os cômodos.
Quando a gente desceu a biblioteca já tava toda bagunçada, ela [Suzane] disse que queria jogar a culpa na empregada dela. Eu fiquei mais bravo com ela. ´Além de tudo, você quer jogar tudo isso em cima de uma pessoa humilde!´. Foi a única vez que eu falei com ela.
Depois ela [Suzane] veio com uma mala cinza, colocou as jóias que meu irmão retirou do quarto e dinheiro, euros, dólares e reais, que ela tinha tirado da biblioteca. Dizendo pra mim que eu tinha que levar isso pra minha casa. Eu nunca quis ficar com esse dinheiro. Eu fiz errado no outro depoimento, sei que menti, mas agora eu juro pela minha família inteira que jamais faria nada isso por dinheiro. Ela dizia que era pra sobreviver até quando a Justiça liberasse os bens dela. Aí, eu percebi que tava tudo arquitetado.
Levamos pares de roupa diferentes. Trocamos as roupas, colocamos com os bastões num saco e fomos embora. Cheguei em casa, eu tava abalado, preocupado. Espero que não interpretem mal. Hoje talvez não tenha mais amizade com a pessoa, mas a Pitty Cristiane [amiga de Cristian], falou pra eu ajudar ela com o namorado que tinha quebrado o braço. Eu passei a madrugada inteira no hospital com o namorado dela. Também ajudei a minha amiga e voltamos pra casa. Não consegui dormir. Tentei descansar, tava apavorado, em estado de choque. Peguei o cachorro pra dar uma volta porque não conseguia [dormir], tava muito nervoso. E as pessoas não entendiam porque eu tava nervoso.
Quando eu ligo de manhã na Globo, meu pai dava uma entrevista. Foi quando eu entrei em pânico total, achei que eles iam descobrir tudo. Tive a covardia de mentir pros melhores amigos que eu tenho, o Jorge, dizendo que ele tinha que ir comprar uma moto comigo com os dólares. O resto eu escondi pra não preocupar a minha avó. Ela é um anjo.
Eu tava preocupado que tudo fosse por água abaixo pelo meu irmão, porque ele tava envolvido. Eu não tinha documentos pra comprar a moto, então pedi pro meu amigo.
Tem mais uma coisa que eu queria dizer. Depois de tudo, eu fui viajar pro sítio, tentei jogar as jóias na estrada, num vacilo do pai da minha ex-namorada. Não consegui, e só fui jogar atrás do terreno do sítio.
Um pouco mais calmo, voltei pra casa da minha avó. Percebi que eu perdi um pouco meu discernimento psicológico. Eu tava tentando esquecer tudo aquilo. Passei dois dias na casa dos meus pais. Até hoje, com 30 anos, o lugar que eu me sinto seguro é o colo dos meus pais.
Lá pelo quinto dia, meu irmão disse que a Suzane ia em casa, eu comprei e dei uma rosa branca pra ela. Eu chorei, o Daniel chorou e ela não chorava. Ela disse: ‘Calma Cris, fica tranqüilo, você não me tirou nada, você me deu uma vida nova’".
[Astrogildo Cravinhos de Paula e Silva, pai de Cristian e Daniel, sobe ao plenário e abraça o filho, os dois choram. Na platéia, pessoas choram, e o juiz interrompe a sessão]

















