Íntegra da fala do assistente de acusação, Alberto Toron, no júri de Suzane
Rosanne D'Agostino - 21/07/2006 - 15h28
O casal Richthofen foi assassinado no dia 31 de outubro de 2002, em crime que tem como réus sua filha, Suzane, e os irmãos Daniel e Cristian Cravinhos.
Leia abaixo a íntegra da argumentação de Toron:
"Falo em nome de Miguel Abdalla, que era irmão de Marísia. Ele perdeu a irmã e perdeu o cunhado, que era amigo dele. Trago a cada um dos senhores, a dor da família, que foi trazida pelas testemunhas.
O crime foi cruel e covarde. E, geralmente, esses tipos de crime, ligamos às favelas. Gente que saiu de lares quebrados, de lares rompidos, abandonada na rua. Os da camada dos excluídos, que encontra na criminalidade uma forma, perversa, de acesso. Nós vemos aqui pessoas de lares estruturados. Suzane tem o privilégio de ter nascido em uma família de classe média alta. Pais que a amavam, que a levavam para a escola.
E esses pais dormiam de portas abertas. Como eu durmo, para ouvir o choro dos meus filhos, se ele quebra a perna, se ele tem um pesadelo. Que horas vai chegar minha filha, minha pedra preciosa? E esse caso causou tanta repugnância porque ele representa uma traição naquela confiança básica, naquela relação entre pais e filhos. "Honrar teu pai e tua mãe", é o título do livro, o 5º mandamento.
E o que nós pedimos é Justiça. Mas eles não confessaram apenas a prática criminosa deles à policia. Quando ouvidos aqui, no tribunal, também.
Cristian era um homem forte, não é à toa que Marísia foi muito judiada. Ele era sarado, olha a foto dele quando ele apareceu pela primeira vez, todo tatuado. E a perita Jane [Marisa Millioni Pacheco Belucci] falou que foi cometido por duas pessoas. A forma de bater é diferente. E depois ele veio aqui e mentiu, numa tentativa desesperada de construir a realidade de forma truncada.
Mas o Cristian também deve ser responsabilizado pela morte dos dois. Porque, senão, a Suzane não seria condenada, porque não bateu em ninguém. Nossa lei brasileira também responsabiliza o mandante, e a ação toda não seria possível sem ela. Eles tinham uma cooperação, quase que uma divisão de tarefas. E saber se os pais estavam dormindo, isso é uma atitude covarde. E ela confirmou. E eles foram lá e castigaram impiedosamente. Todos estavam articulados com o mesmo objetivo e desempenharam funções essenciais para se consumar esse duplo homicídio.
E esse duplo homicídio não foi praticado por violenta emoção, porque não teve discussão, ou por relevante valor moral, porque ela não foi violentada pelos pais. E também não foi por maconha, porque ela não tem o condão para provocar esse tipo de coisa. Se maconha levasse alguém a matar os pais, nós seriamos um país de órfãos!
Maconha permite concentração, permite objetividade. [Diz citando especialistas norte-americanos no assunto] E é por isso que a mãe dos Cravinhos não percebia nada, porque esse entorpecente...É o caráter das pessoas que leva alguém a matar, e eles queriam o bem viver. Cobiçavam os bens dos pais dela. Ela queria o mundo cor de rosa que o Daniel prometeu e nunca lhe deu. E eles fizeram, com liberdade, juntos.
É um crime cometido por motivo torpe! É uma coisa asquerosa! E o Cristian também agiu movido por motivo torpe, porque cometido com promessa de pagamento. Ele pegou os bens, passou a mão. Ele comprou uma moto e disse que chorava quando cometeu o crime. Lágrimas de crocodilo! Está aí, o egoísmo deles.
Quando recebeu o freio, o egoísmo contrariado da Suzane, ela cometeu o crime, quando lhe foi negado o namoro. Também é reprovável porque revelou a covardia e porque pegaram as vítimas de uma maneira que elas não puderam se defender.
Quem sabe Marísia, em sua agonia final, não pensou: Será que não vão pegar minha filha? E no grito final, ela ainda foi asfixiada. E isso é o meio cruel. Os laudos diziam que eles tiveram uma morte agônica.
Nós estamos diante de um duplo homicídio, duas vítimas foram covardemente suprimidas. Crime cruel, planejado pela própria filha contra seus pais. E cometidos pelos irmãos Cravinhos.
E eles [casal Richthofen] devem ser tratados com respeito. Os acusados, como homens de respeito, como homens responsáveis pelos seus atos, respeito que eles não tiveram para com as vítimas, que não puderam se defender.
Eles [os réus] não deram a menor chance de defesa, que eles estão tendo agora. E que eles sejam punidos na medida exata da culpabilidade deles. Todos participaram de um duplo homicídio triplamente qualificados. E também por fraude processual, porque eles alteraram a cena do crime. E nós pedimos que os senhores reconheçam, em favor deles, a atenuante genérica da confissão, porque eles confessaram. Procurando diminuir suas responsabilidades, mas confessaram.
Ontem, foram condenados aqueles que mataram o casal de namorados, Felipe [Caffé] e Liana [Friendenbach], e os pais deles viram que a Justiça nesse país existe. Eu vi a felicidade nos olhos deles. O que nós precisamos é dizer que acreditamos na Justiça, e fazer justiça hoje é condenar os três por dois homicídios triplamente qualificados.”
Leia mais:
Íntegra da fala do promotor Tardelli no último dia de júri do caso Richthofen
Suzane e Cravinhos ouvem argumentos da promotoria de cabeça baixa
Advogado de Suzane volta a prometer “bomba” para final do julgamento
Em novo depoimento, Cristian admite ter ajudado a matar casal Richthofen
Íntegra do novo depoimento de Cristian sobre morte do casal Richthofen
Juiz não aceita juntar no processo pedido de exclusão da herança de Suzane

















