Livro mostra trajetória de colunista no jornalismo entre os anos 50 e 60
Danielle Ribeiro - 01/03/2008 - 16h04
A obra retrata detalhes e bastidores de um jornalismo inimaginável para os jovens que ocupam as redações de hoje em dia. Maranhão começou como tradutor de telegrama, responsável por dar a forma jornalística a notícias transmitidas pelo telegrafista por código Morse.
Nesta época, então com 15 anos, o autor conta que foi acompanhar a reunião de dirigentes do antigo PSD —um dos líderes estaria “se bandeando” para ser candidato pelo partido adversário— e no momento em que eles foram se reunir em sala fechada, todos os repórteres saíram, menos um. Josué Maranhão conseguiu se infiltrar e se escondeu embaixo da mesa de reuniões, até que um pigarro, “típico de um fumante de longa data”, o denunciou.
“Eu ouvi muita lavagem de roupa suja, mas era muito jovem, eles [os dirigentes] não levaram muito em consideração. De qualquer forma, deu para repercutir bem a história”, conta.
A reportagem mais marcante e que causou fortes dores de cabeça seria feita poucos anos depois, em 1960. Era final de um dia de trabalho, e o jornalista recebeu a ligação de um amigo, então telegrafista e funcionário de uma companhia aérea que hoje não existe mais. Havia informações de que no dia seguinte seria feita uma assistência técnica em um avião da antiga União Soviética que passaria por Natal de forma sigilosa rumo a Argentina. “Eu não sabia quem era, mas o simples fato de descer um avião da União Soviética já era notícia.”
O faro do jornalista não falhou. A delegação era composta por vários ministros e chefiada por Alex Kossiguin, na época vice-primeiro ministo. A entrevista teve grande repercussão na mídia e resultou em uma longa perseguição política que se estendeu durante a ditadura. “Fui perseguido porque ninguém entendia como somente eu, jornalista do Rio Grande do Norte, tinha tomado conhecimento de uma escala técnica de um avião da União Soviética.”
Esse caso mostra a relação de fidelidade que Josué Maranhão diz ter estabelecido com suas fontes. Mesmo após anos da publicação da entrevista, o jornalista se nega a dizer o nome do amigo que lhe contou sobre a visita dos soviéticos.
Magistratura
Após 15 anos de muitas histórias e coberturas, Maranhão abandonou a carreira jornalística e ingressou na magistratura “pouco por pressão da família e muito por necessidade”. O colunista lembra que naquela época ninguém conseguia sobreviver com o que recebia nas redações e, por isso, todos exerciam outras profissões paralelamente.
No entanto, tanto a função de juiz quanto a de advogado, que veio a exercer alguns anos depois, não atenderam as suas expectativas. “Eu via o direito como uma coisa sublime, o juiz era um sacerdote. A notícia de que juizes vendiam sentenças me decepcionou muito.”
O bacharel em direito aposentado, que acompanhou toda a evolução tecnológica de fora das redações, diz não imaginar como se faz jornalismo nos dias de hoje. Para ele, existe um abismo entre a forma como se fazia ontem —com pesquisas em biblioteca e ligações que poderiam demorar um dia inteiro para serem transferidas— e a tecnologia que temos atualmente.
No entanto, Josué Maranhão preenche seu tempo hoje se dedicando ao seu blog e à coluna que assina semanalmente no site Última Instância, uma forma de seguir escrevendo e não abandonar completamente o que acredita ser sua grande vocação.
“Eu não quero parar, o ócio é um péssimo companheiro”, afirma o autor, que não descarta a possibilidade de uma nova publicação sobre sua trajetória no mundo jurídico.
Livro: "Um Repórter à Moda Antiga"
Autor: Josué Maranhão
Onde comprar: Livraria Última Instância (clique)


















