Ciúme pode ser palavra-chave em mistério sobre morte de menina

Rosanne D'Agostino - 04/04/2008 - 12h06

A palavra "ciúme" foi mencionada por diversas vezes no inquérito que apura a morte da menina Isabella Nardoni, 5 anos, que caiu no sábado à noite (29/3) do 6° andar de um prédio em São Paulo.

“Ainda não posso adiantar, porque o inquérito está sob sigilo, mas isso [o ciúme] foi mencionado muitas vezes”, revelou o promotor do caso, Francisco José Taddei Cembranelli, a Última Instância após entrevista coletiva que durou cerca de duas horas na tarde desta sexta (4/4) na sede do MP-SP (Ministério Público de São Paulo).

Segundo o promotor, que não pôde dizer a quem está relacionado o suposto ciúme, após 15 depoimentos e cinco dias de investigações, o pai de Isabella, o consultor jurídico Alexandre Nardoni, 29 anos, e a madrasta Anna Carolina Trotta Peixoto, 24, são tratados como suspeitos do crime investigado como homicídio.

Ambos estão presos em celas individuais de duas delegacias da capital desde ontem, após a decretação da temporária, por 30 dias, na noite de quarta (2/4) pelo juiz Mauricio Fossen, da 2ª Vara do Juri do Fórum de Santana.

Contradições
O promotor também viu contradições e aspectos obscuros nos depoimentos do pai e da madrasta da menina que, segundo ele, possui “trechos fantasiosos”. Ele pediu cautela até a conclusão do inquérito, que deve ocorrer, ainda conforme Cembranelli, antes do previsto.

Um deles seria o fato de o pai de Isabella ter comentado na hora do acidente que a porta do apartamento havia sido arrombada. “A perícia já constatou que não houve arrombamento algum”, afirmou.

Outra suspeita está sobre o sangue encontrado por peritos na porta do apartamento, omitido no depoimento do pai à polícia. “Perto da porta, os peritos afirmavam que o sangue era muito visível”, completa Cembranelli.

Ele citou ainda que existem boletins de ocorrência anexados ao inquérito que estariam relacionados à agressividade do pai e que testemunhas teriam ouvido uma discussão no prédio.

“Acredito que a conclusão deste caso será breve, mas ainda aguardamos o resultado de todos os laudos, principalmente o do IML, para atribuir responsabilidades”, completou. “Não queremos responsabilizar inocentes”, concluiu.

Defesa
A mãe biológica da menina, a bancária Ana Carolina Cunha de Oliveira, 23, prestou depoimento no 9º DP do Carandiru na quarta (2). Ela afirmou que quer apenas "que a justiça seja feita".

O advogado do pai e da madrasta, Ricardo Martins, afirma que seus clientes são inocentes. Uma das testemunhas disse ter ouvido gritos de "Pára, pai", vindos do apartamento que, para o defensor, são "interpretativos", já que a menina deveria estar chamando pelo pai, pedindo socorro.

A defesa deve entrar com habeas corpus na próxima semana para libertar os dois. Segundo outro dos advogados, Marco Polo Levorin, eles não representam uma ameaça às investigações e nunca se furtaram a colaborar com a polícia.

Nardoni e a mulher ainda enviaram uma carta à imprensa na qual afirmam que "a verdade prevalecerá". O promotor acredita que a prova é precária. "Qualquer um pode escrever uma carta e juntar ao processo", diz.

Ainda não foi marcada a reconstituição do crime, que só deve ocorrer após concluídas as perícias e os resultados dos exames pelo IML (Instituto Médico Legal).

Crime
À polícia, o pai de Isabella afirmou ter chegado no edifício onde mora acompanhado da menina, da madrasta e dos outros dois filhos pequenos do segundo casamento, de três e de onze meses. Ele disse ter subido sozinho e, deixado Isabella no quarto. Ela morava com a mãe, e ficava com o pai a cada 15 dias.

Quando voltou com os demais, informou que a luz do quarto dela estava acesa e a tela de proteção da janela, cortada. A perícia, no entanto, apurou que a tela estava partida no quarto dos irmãos. Também havia sangue no local e no corredor de entrada do apartamento. O Corpo de Bombeiros foi acionado, houve tentativa de reanimação, mas sem sucesso.


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