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"Eu surtei", diz Farah Jorge Farah; júri recomeça nesta quarta
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Rosanne D'Agostino

Uma perseguição desenfreada que culminou em crime. Esta foi a defesa do ex-cirurgião plástico Farah Jorge Farah em interrogatório no primeiro dia de júri popular que enfrenta pela morte e esquartejamento da dona-de-casa e ex-amante Maria do Carmo Alves. O crime ocorreu em janeiro de 2003.

O julgamento, previsto para durar três dias, foi interrompido às 22h05 e será retomado nesta quarta (16), no Fórum de Santana, zona norte da capital paulista.

“Eu surtei”, disse o ex-médico. O corpo da vítima só foi encontrado dias depois, dividido nove pedaços escondidos em cinco sacos de lixo, no porta-malas do carro de Farah.

Aos 59 anos, Farah é réu em processo por homicídio duplamente qualificado, destruição, ocultação e vilipêndio a cadáver. Está em liberdade desde maio de 2007, após quatro anos preso, graças a habeas corpus do STF (Supremo Tribunal Federal) que considerou que sua prisão preventiva não se justificava apenas pela gravidade do crime e clamor público.

Com o benefício da liberdade, pôde inclusive assistir a um julgamento no mesmo Fórum de Santana às vésperas de seu próprio júri.

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Para o promotor do caso, Alexandre Marcos Pereira, não será uma surpresa se a decisão do STF fizer com que se repita a mesma situação do jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves: um condenado solto. "Fica a critério do juiz", destaca.

Julgamento
O júri é formado por cinco mulheres e dois homens. Até agora, foram ouvidas dez de 23 testemunhas. Nesta quarta, o restante dos depoimentos devem ser colhidos, e dois filmes devem ser transmitidos as jurados "Atração Fatal" e "Tomates Verdes Fritos". O juiz Rogério de Toledo Pierri preside o júri. Celulares, gravadores e laptops foram proibidos.

Um acordo entre o Ministério Público e a defesa dispensou a leitura dos autos. Em conseqüência disso, o tempo de debates, em que defesa e acusação apresentam suas argumentações, foi aumentado. Serão quatro horas para cada, com mais uma hora de réplica e tréplica.

Nulidades
Ao final do primeiro dia de julgamento, a defesa de Farah disse que deve pedir a nulidade do júri, em razão de uma série de irregularidades processuais no andamento da sessão.

Segundo Roberto Podval, os depoimentos foram tomados em ordem errônea em razão de uma série de complicações de saúde de testemunhas. As oitivas foram iniciadas com a versão de peritos da defesa e duas mulheres que passaram mal antes do júri.

A versão de Farah
O julgamento, marcado para as 10h, começou com quase seis horas de atraso, às 15h40. Um erro do cartório —que deixou de emitir a intimação para que uma das testemunhas, de Santo André, comparecesse ao Fórum de Santana— por pouco não provocou novo adiamento do júri, contornado por um oficial de Justiça que localizou a pessoa a tempo.

Farah Jorge Farah chegou ao prédio do 2° Tribunal do Júri pouco antes das 10h. De bengalas, amparado pela defesa e assediado por jornalistas, o ex-cirurgião tropeçou, caiu e foi resgatado por quem o rodeava.

"Surtei"
No interrogatório, sustentou que era perseguido pela dona-de-casa na época do crime. Disse estar perdido, transtornado e deprimido por perder um grande amor por culpa da vítima. "Essa mulher vinha me perseguindo constantemente e à minha família."

Maria do Carmo chegou ao consultório no momento em que ele fechava a sala e apagava as luzes. Ao ser questionado se cometeu o crime, Farah afirmou que "houve luta", mas não se lembrava de como ocorrera o esquartejamento na clínica.

"Ela disse que queria ter uma conversa civilizada, e eu concordei, após cinco anos de perturbação. Quando vi, ela já estava no corredor com uma faca na mão. Eu já usava essa bengala [após cirurgia de retirada de câncer] e me defendi. Ela bateu a cabeça na parede, nós nos atracamos, ela xingou minha mãe e não me lembro de mais nada", relatou.

Ainda de acordo com Farah, ele não conseguia distinguir realidade de sonho. "Me defendi tanto quanto pude. Só cai em mim no dia seguinte. Agi em legítima defesa".

O ex-cirurgião reafirmou que manteve relacionamento com a dona-de-casa, mas diz que terminou quando soube que ela era casada. Também admitiu manter envolvimento amoroso com outras pacientes, mas que nenhuma o perseguiu dessa maneira.

Perseguição
"Ela começou a ameaçar a mim e a minha secretária dizendo que iria bater nela. Eram atitudes agressivas tão intensas que o medo em nós começou a aumentar", disse.

Farah fez questão de citar que tentou o auxílio da Justiça e a proteção do Estado, mas o que ouviu foram respostas jocosas de que eram apenas brigas de casal. "Eram ligações incontáveis. Ela ficava o dia inteiro discando o redial para impedir que eu fizesse qualquer outro tipo de contato telefônico", alega.

Farah citou que seus pais estavam doentes e morreram sem cuidados no período em que permaneceu na cadeia. "Não desejo isso para ninguém", afirmou soluçando, de costas para o público, de terno azul e segurando a bengala. "Estou trêmulo, tenso e arrasado."

A defesa preparou uma lista com todas as ligações realizadas por Maria do Carmo Alves a fim de comprovar a perseguição. Cinco membros da equipe de advogados passaram a tarde do júri organizando os documentos.

Choro e beijo na testa
Marina Borini, uma das testemunhas de defesa, defendeu Farah, com quem conviveu na época de estudante. “Eu o conheço desde 1972. É uma pessoa extremamente boa, prestativa, que não teria feito isso em hipótese nenhuma”, afirmou. Ao sair do plenário, ela o abraçou e beijou sua testa. “Deus te abençoe e ilumine”, desejou.

No depoimento mais forte da noite, uma testemunha de nome Sandra relatou ter sofrido abusos do ex-cirurgião na mesma clínica em que Maria do Carmo foi esquartejada e morta. “Sentia uma voz no ouvido, beijos no rosto, uma língua, um aroma de frutas, banana e laranja. Não voltei nem mesmo para tirar os pontos. Eu me culpava, sou casada”, afirmou, aos prantos.

O advogado de defesa de Farah, Roberto Podval, tentou desqualificar o depoimento, ao citar que, depois do crime, a vítima entrou com ação de indenização, que foi negada pela Justiça. Disse ainda que o inquérito foi arquivado.

Semi-imputável
Em outubro de 2006, os advogados de Farah apresentaram incidente de insanidade mental. Nesta terça, dois peritos reforçaram o laudo que produziram ao longo do processo que atesta que Farah é semi-imputável, ou seja, possui algum tipo de personalidade anti-social, comportamento sexual perverso e incapaz de alterar suas atitudes apesar das punições.

Esse tipo de pessoa não sente culpa pelo que faz e possui transtornos fronteiriços da personalidade. Sabe o que cometeu, mas é incapaz de perceber a gravidade dos atos. A Justiça trata o semi-imputável de maneira mais branda, justamente porque a punição não é a melhor maneira de prevenir outros crimes. A pena é diminuída de um a dois terços.

"Quando ele realiza a dissecação do cadáver, não o vê como tal. Ele está desconstruindo a imagem feminina", acredita o psiquiatra Marco Antonio Beltrão. "Não é um psicopata, mas uma pessoa capaz de cometer um crime desses se submetida a um stress muito grande, é um descontrole", completou a psiquiatra forense Hilda Morana.

Por sua vez, os três médicos responsáveis pelo parecer que suspendeu o exercício de medicina de Farah reafirmaram que foram zelosos em pensar que ele pudesse cometer outro fato grave contra um paciente. Sobre a sua amnésia, disseram que "não é impossível, mas pouco provável".

"Ele possuía traços de teatralidade, por verbalizar muito mais do que estava sentindo, e falta de empatia", afirmou o psiquiatra Mauro Gomes Aranha de Lima.

Próximos passos
Nesta quarta-feira (16/4), após os depoimentos de todas as testemunhas, devem ocorrer a exibição de dois filmes na íntegra, "Atração Fatal" e "Tomates Verdes Fritos". Os longas narram histórias sobre crimes cometidos em legítima defesa e obsessão. A defesa deve mais uma vez argumentar que Farah agiu sob perseguição insuportável da dona de casa.

"Nossa maior dificuldade será convencer os jurados de que a morte deve ser separada do restante do crime", adianta Podval. "Com os filmes, todos poderão ver o que ele passou, a situação psicológica insuportável."

Os debates devem ficar para o último dia de julgamento. Depois, os jurados reúnem-se em uma sala secreta onde respondem a perguntas formuladas pelo juiz. Com base nelas, o magistrado redige a sentença, define a pena e o veredicto é anunciado.

Terça-feira, 15 de abril de 2008

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