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Testemunhas relatam ameaças de vítima a ex-cirurgião
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Rosanne D'Agostino

O segundo dia de júri popular do ex-cirurgião Farah Jorge Farah serviu para reforçar sua versão sobre como era perseguido intoleravelmente por sua vítima e ex-amante, Maria do Carmo, até a data do crime que chocou o país.

Após o depoimento das 23 testemunhas, agora serão exibidos dois filmes aos jurados "Atração Fatal" e "Tomates Verdes Fritos". Com isso, a defesa pretende demonstrar que Farah matou Maria do Carmo em legítima defesa e por causa de uma obsessão incontrolável por parte dela.

O julgamento, previsto para durar três dias, acontece no Fórum de Santana, zona norte da capital paulista.

Nesta quarta, testemunhas afirmaram terem visto Maria do Carmo invadir o consultório de Farah e terem presenciado incontáveis ligações que chegavam a bloquear três ou quatro linhas existentes no local, para qualquer outro tipo de contato.

O advogado do ex-cirurgião afirmou que possui o registro de todas as ligações, que chegaram a ser mais de duzentas em um dia só. “Essas foram feitas no telefone que encontramos. Podem ser mais ainda”, disse.

“Se ele não me atender vai ter morte nesse consultório”, teria dito Maria do Carmo, segundo uma ex-secretaria de Farah, Cristina Leal de Nascimento. “Ela também me ameaçava. Eu temia”.

Outra testemunha, sobrinha do ex-cirurgião, contou que a perseguição se estendia a todos os familiares. Tânia foi a parente que revelou à policia que Farah havia confessado o crime. “Foi um pesadelo, mas a gente já imaginava que aquilo não iria terminar bem. Aquela mulher era perturbadora e não se conformava com o término”, afirmou.

A sobrinha também disse que recebeu ligações do marido de Maria do Carmo na qual ele teria pedido dinheiro e afirmava que a esposa tinha sido molestada pelo médico. “Até meu pai e minha mãe tiveram que trocar o telefone duas vezes”.

Além delas, outra secretária de Farah e um policial militar que havia levado a esposa para fazer uma cirurgia plástica na clínica também confirmaram os telefonemas ininterruptos.

Acusação
Por outro lado, depoimentos também revelaram que Farah teria abusado de pacientes. Uma testemunha de nome Sandra relatou ter sofrido abusos do ex-cirurgião na mesma clínica em que Maria do Carmo foi esquartejada e morta. “Sentia uma voz no ouvido, beijos no rosto, uma língua, um aroma de frutas, banana e laranja. Não voltei nem mesmo para tirar os pontos. Eu me culpava, sou casada”, afirmou, aos prantos.

O advogado de defesa de Farah, Roberto Podval, tentou desqualificar o depoimento, ao citar que, depois do crime, a vítima entrou com ação de indenização, que foi negada pela Justiça. Disse ainda que o inquérito foi arquivado.

Versão do ex-cirurgião
O julgamento, marcado para começar às 10h desta terça-feira, começou com quase seis horas de atraso, às 15h40. Um erro do cartório —que deixou de emitir a intimação para que uma das testemunhas, de Santo André, comparecesse ao Fórum de Santana— por pouco não provocou novo adiamento do júri, contornado por um oficial de Justiça que localizou a pessoa a tempo.

No interrogatório, Farah Jorge Farah disse estar perdido, transtornado e deprimido por perder um grande amor por culpa da vítima. "Essa mulher vinha me perseguindo constantemente e à minha família."

Maria do Carmo chegou ao consultório no momento em que ele fechava a sala e apagava as luzes. Ao ser questionado se cometeu o crime, Farah afirmou que "houve luta", mas não se lembrava de como ocorrera o esquartejamento na clínica.

"Ela disse que queria ter uma conversa civilizada, e eu concordei, após cinco anos de perturbação. Quando vi, ela já estava no corredor com uma faca na mão. Eu já usava essa bengala [após cirurgia de retirada de câncer] e me defendi. Ela bateu a cabeça na parede, nós nos atracamos, ela xingou minha mãe e não me lembro de mais nada", relatou.

Ainda de acordo com Farah, ele não conseguia distinguir realidade de sonho. "Me defendi tanto quanto pude. Só cai em mim no dia seguinte. Agi em legítima defesa".

Quarta-feira, 16 de abril de 2008

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